Autocuratela: e se um dia você não puder mais decidir por si mesmo?

“Doutora, minha mãe começou a esquecer as coisas. Hoje sou eu quem cuida dela. Mas fico pensando… e se um dia acontecer comigo? Quem vai decidir pela minha vida e pelo meu patrimônio?”

Essa pergunta, feita por uma cliente durante uma conversa sobre a interdição da mãe, resume um medo que quase ninguém coloca em palavras: o de perder, um dia, a capacidade de decidir e de não ter deixado nada dito sobre como quer ser cuidado.

A boa notícia é que hoje existe uma resposta jurídica para esse medo. Ela se chama autocuratela.

O que é:

A autocuratela é um documento preventivo. Nele, você decide quem será o seu curador e como quer ser cuidado caso, no futuro, perca a capacidade de se autogovernar.

Pense em situações como um AVC grave, um acidente que leve ao coma ou uma doença neurodegenerativa, como o Alzheimer. Em qualquer uma delas, alguém precisará administrar seus bens e tomar decisões por você. A pergunta é: será uma pessoa que você escolheu, ou alguém definido por um juiz, sem saber qual era a sua vontade?

A autocuratela existe justamente para que essa escolha seja sua, e não uma decisão tomada por terceiros num momento em que você não pode mais opinar.

O que você pode definir nesse documento

A autocuratela é feita por escritura pública, lavrada no Cartório. Dentro dela, você pode estabelecer, entre outros pontos:

Quem será o seu curador — e, se quiser, indicar mais de um, em ordem de preferência, além de substitutos, caso o primeiro não possa assumir

Como seus bens devem ser administrados — com regras e limites que você mesmo define

Seus cuidados pessoais — preferências de moradia, tratamento e rotina

Regras de prestação de contas — para que quem cuida de você preste satisfações do que faz

Em outras palavras: você não deixa apenas um nome. Deixa instruções de vida.

O que a autocuratela NÃO faz (e aqui mora um ponto importante)

A autocuratela não elimina o processo judicial.

Mesmo tendo a escritura, ainda será necessária, no futuro, uma ação judicial de curatela. A diferença é que, nesse processo, o juiz não parte do zero. Ele deve respeitar aquilo que você manifestou antes, homologando, sempre que possível, as disposições que você deixou registradas.

Ou seja: a autocuratela não substitu, mas guia o juiz. E isso muda tudo para quem deseja ter voz sobre o próprio futuro.

Para quem a autocuratela faz sentido

Existe uma ideia equivocada de que esse documento é só para idosos ou para quem já recebeu um diagnóstico. Não é.

A autocuratela faz sentido para qualquer adulto que queira ter controle sobre o próprio futuro: do jovem empresário que quer proteger seu patrimônio de disputas familiares, à pessoa com histórico familiar de doenças neurológicas, até quem simplesmente não quer deixar decisões tão íntimas nas mãos do acaso.

Um convite à reflexão

Nós já nos acostumamos a planejar a herança, a fazer testamento, a organizar a sucessão dos bens. Mas raramente paramos para planejar algo ainda mais delicado: quem decidirá por nós enquanto ainda estivermos vivos, mas sem poder decidir.

A autocuratela responde a essa pergunta com a única voz que deveria ter o direito de respondê-la: a sua.